O que o Alzheimer tem a ver com sindemia, conceito que junta sinergia com epidemia?
Alzheimer em mulheres: danos cerebrais podem começar bem antes da velhice
Quando se pensa em Alzheimer, logo vem à mente a imagem de placas beta-amiloides e de proteínas tau anormais no cérebro. No entanto, exames pós-morte de pessoas portadoras de demência indicam outros problemas, como o acúmulo de gorduras e até acidentes vasculares cerebrais microscópicos, também chamados de microinfartos cerebrais. Embora sejam assintomáticos, isto é, silenciosos, à medida que se acumulam podem afetar a capacidade cognitiva do indivíduo. Ampliar a forma de encarar a enfermidade tem levado os pesquisadores a dar cada vez mais importância à soma de eventos que impactam a existência humana.
Dois terços dos pacientes com Alzheimer são mulheres: pesquisadores querem medir como variáveis como educação, pobreza, sono e oportunidades limitadas influenciam a reserva cognitiva
Ageing without limits
O conceito de sindemia foi largamente utilizado na Conferência Internacional da Alzheimer's Association (AAIC 2026), em Londres, mas o que isso quer dizer? Significa que estamos diante de um quadro complexo, que não deve ser visto apenas como uma falha biológica do cérebro, mas sim como o resultado de condições socioculturais, políticas, ambientais e econômicas. Em suma, é preciso levar em conta todos os fatores capazes de contribuir para a enfermidade.
A palavra sindemia é uma junção de sinergia com epidemia, um conceito criado na década de 1990 pelo antropólogo médico Merrill Singer. Descreve uma situação em que duas ou mais doenças interagem entre si de forma que uma potencializa a outra – e cujo impacto é amplificado pelas condições sociais e econômicas da população. O objetivo do "Modelo de Sindemias da Neurociência Populacional-Demência" (PNDS, na sigla em inglês), publicado em janeiro de 2026, é justamente dar visibilidade ao papel desempenhado pelas desigualdades.
No painel Abordando as Diferenças de Gênero/Sexo no Complexo Problema da Demência, os palestrantes analisaram a questão feminina e seu risco aumentado para o Alzheimer – dois terços dos pacientes são mulheres – a partir de variáveis como educação, pobreza, hormônios sexuais, sono e oportunidades limitadas para o desenvolvimento de reserva cognitiva.
Beth Shaaban, professora de enfermagem e epidemiologia da Universidade de Pittsburgh, fez uma provocação: “Será que reduzir a proteína amiloide é a resposta certa? E o que dizer da influência de migrações, guerras, pobreza, mudanças climáticas, desastres naturais, poluição, racismo, sexismo, capacitismo e todas as interseções que derivam dessas situações para o surgimento da doença de Alzheimer? Sabemos que os fatores políticos, econômicos, ambientais e socioculturais levam ao estresse, ao envelhecimento biológico e, consequentemente, à demência.”
Para dar alguns exemplos práticos:
Infecções na infância: crianças expostas a infecções frequentes, como as que contraíram malária, podem apresentar dificuldade de aprendizado. Vale lembrar que a escolaridade formal é considerada um importante fator de proteção contra a demência.
Violência de gênero: mulheres que sofrem agressões físicas na região da cabeça têm um risco aumentado de desenvolver demência.
Distúrbios de sono: comuns a partir da perimenopausa, afetam o nível de inflamação do organismo e também são um fator de risco modificável.
Barreiras educacionais: um número expressivo de mulheres não tem acesso à educação, o que limita a sua capacidade de criar uma reserva cognitiva.
Prevenção e demência na América Latina
A "Iniciativa Latino-Americana para Intervenção no Estilo de Vida para Prevenir o Declínio Cognitivo" (LatAm-FINGERS), financiada pela Alzheimer's Association, relatou como intervenções no estilo de vida adaptadas à cultura de cada país melhoraram a memória, o raciocínio e a função cognitiva geral em idosos sob risco de demência em 11 países da América Latina, com os maiores ganhos observados nos participantes que receberam suporte estruturado e mentoria. Os achados desse trabalho de dois anos reforçam os resultados do “Estudo Norte-Americano para Proteger a Saúde Cerebral por meio de Intervenção no Estilo de Vida para Reduzir o Risco” (U.S. POINTER). Ambos indicam que intervenções no estilo de vida de múltiplos domínios – incluindo atividade física, alimentação saudável, treinamento cognitivo e engajamento social – podem ser formatadas com sucesso para diferentes comunidades.
Os programas de atividade física incorporaram atividades familiares, como salsa e tango, e exercícios em grupos ao ar livre em parques públicos. O aconselhamento nutricional se adaptou às tradições alimentares regionais, baseando-se em alimentos acessíveis localmente.
"O LatAm-FINGERS incluiu uma diversidade racial e étnica significativa, além de uma ampla gama de escolaridade e status socioeconômico. Os resultados demonstram que a saúde cerebral pode ser melhorada nas comunidades com níveis variados de acesso a recursos", explicou Laura Baker, professora de gerontologia e geriatria da Universidade Wake Forest.
Os pesquisadores defendem que abordar vários fatores de risco simultaneamente oferece o maior benefício para a saúde do cérebro. À medida que as taxas de demência aumentam no mundo inteiro, programas acessíveis baseados ganham relevância, especialmente em países de baixa e média renda.
A análise do estudo incluiu 1.065 participantes em 12 centros na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Uruguai, divididos aleatoriamente em dois grupos de intervenção que diferiam em estrutura, intensidade e nível de suporte:
Os 539 participantes do grupo de Intervenção Sistemática no Estilo de Vida (ISE) receberam mentoria e suporte contínuos, incluindo exercícios supervisionados, aconselhamento nutricional, treinamento cognitivo computadorizado, monitoramento de risco cardiovascular e 38 reuniões em grupo para conexão social.
Os 526 participantes do grupo de Intervenção Flexível no Estilo de Vida (IFE) receberam educação em saúde periódica e recomendações gerais de estilo de vida. Ao longo de dois anos, participaram de quatro reuniões em grupo onde receberam recomendações sobre dieta, atividade física, engajamento cognitivo e social e manejo de risco vascular, sem mentoria ou supervisão contínua.
Após dois anos, os participantes do grupo ISE demonstraram uma melhora cognitiva – assim como de função executiva, memória e velocidade de processamento – significativamente maior do que os do grupo IFE. A propósito, o Dia Mundial do Cérebro é comemorado em 22 de julho. O AAIC 2026 também foi assunto das colunas de terça e quinta.
7/19/2026 12:01:17 AM