Consequências…
Assim é porque o sistema de
governo é de forte pendor parlamentar, sendo o governo politicamente
responsável perante a Assembleia Nacional, e não ao presidente da república. Ou
seja, para governar, não basta
que um partido tenha ganho as eleições. É fundamental que, através da moção de
confiança, demonstre ter uma maioria parlamentar de suporte à política geral
que pretende realizar.A apresentação do
programa do governo numa sessão especial do parlamento é um momento ímpar para
o primeiro-ministro dirigir-se à Nação, dar a conhecer as linhas gerais das suas políticas e submetê-las
ao contraditório dos deputados da oposição. É um pontapé de saída para o jogo
democrático da nova legislatura que, ao criar um quadro de debate e de
fiscalização de políticas a ser propostas e implementadas, vai possibilitar a
avaliação do progresso realizado e o confronto com políticas alternativas. Pela
importância da sessão especial o regimento da AN estipula um tempo máximo de
três reuniões consecutivas, sem período de antes da ordem do dia. Programar o
futuro num momento tão complexo da vida do país e também do mundo, com as suas
incertezas e imprevistos, aconselha que não se encurte o tempo de debate e que,
pelo contrário, se
faça o melhor do que é possível disponibilizar. Para uma discussão
mais produtiva entre o governo e os outros sujeitos parlamentares, seria talvez
proveitoso que o programa do governo não aparentasse ser essencialmente um
catálogo de boas intenções de tudo fazer “para todos”. De facto, num país de
recursos escassos, com orçamento rígido, devido à alta percentagem de despesas obrigatórias
e a resistências a
reformas da administração pública que afectam funcionários, conseguir libertar
recursos para realocar em sectores importantes na base da gratuitidade não será
certamente tarefa fácil. E só boa intenção não chega. Também não será
pela via da eliminação de “gorduras” localizadas no elenco governamental, no “excessivo” número de
deputados na Assembleia Nacional e no “pesado” custo dos estudos, que em geral
acompanham os projectos financiados pelos parceiros externos, que irá garantir
isso. Aliás, a adoção dessas medidas não
decorre da intenção de tornar mais eficiente a utilização dos recursos públicos.
A a escolha dessas gorduras é feita não por querer maior eficiência na
utilização de recursos públicos, mas mais pela ressonância que faz com os
preconceitos demagogicamente alimentados contra os políticos e também contra a
democracia. É característico de uma certa esquerda, que ainda reclama algum
ascetismo bolchevique, ou se revê no ideal do suicídio da pequena burguesia, afirmar
superioridade moral sobre os outros actores políticos. Nessa perspectiva,
basta mostrar no programa do governo as suas intenções e elencar resultados sem revelar como se vão
materializar, quais as prioridades, como vai ultrapassar as resistências, como
vai lidar com os prejudicados pelas reformas, qual o horizonte temporal e o
passo de concretização e como vai encadear as medidas de política para aumentar
as probabilidades de sucesso. Parece que
não faz mossa o facto de a visão de futuro para o país que é apresentada assentar
no mesmo discurso das vantagens comparativas de sempre - “localização
geoestratégica privilegiada, uma diáspora dinâmica e qualificada, estabilidade
institucional, capital humano crescente e uma juventude criativa e empreendedora”
- cuja correspondência com a realidade é
no mínimo precária. Procura-se manter o ilusionismo com autoproclamações de ser o “partido da Independência,
da construção do Estado e da transformação nacional”, ou seja, os únicos
agentes das mudanças em Cabo Verde nos mais de cinco séculos da sua existência.A realidade de que
é preciso crescimento económico para ter país inclusivo, combater a pobreza e
prosperar não é assumida explicitamente. E isso é complicado porque
considerando o estádio de desenvolvimento de Cabo Verde entre os países
insulares é da maior importância que haja uma aceleração no crescimento para poder
responder às expectativas crescentes das pessoas, das famílias e da sociedade. Entretanto, ao nível do
programa do governo o foco nas promessas
de redistribuição de rendimentos tende, na prática, a dirigir a governação para
um caminho que não difere muito do tipo de “gestão corrente” que se vinha
acusando o MpD de estar a fazer e que, de acordo com o discurso produzido pela
então oposição, gerava uma dinâmica económica que não beneficiava os mais vulneráveis.Em consequência, o
que poderá vir a verificar-se, por um lado, é que nem se tem o acréscimo no
potencial de crescimento porque as reformas não são feitas e, por outro, a
gestão da escassez que se professa fazer em nome da luta contra as desigualdades
acaba por produzir distorções que podem enveredar por caminhos complicados. É o
que parecem evidenciar as recentes investigações a actos da câmara da Praia
pelo Ministério Público e subsequente acusação deduzida, dirigida a autarcas,
personalidades e outras entidades, em vários crimes, entre os quais crimes de
responsabilidade política. Isso, em geral, acontece quando se cria um ambiente
político num quadro, não de foco no crescimento, na promoção da autonomia individual
e no incentivo à iniciativa privada mas, pelo contrário, de gestão de escassos recursos, de criação de
dependência do Estado e de aproveitamentos da vulnerabilidade para ganhos
políticos eleitorais.Se normalmente
tais situações revelam as fragilidades das instituições em cumprir e fazer
cumprir as normas e os procedimentos democráticos, no caso actual, as
consequências ultrapassam o âmbito da câmara da Praia para afectarem
directamente o governo do país. E é assim porque, entre o início das
investigações e a dedução da acusação, o então presidente da CM da Praia passou
a primeiro-ministro depois das eleições legislativas de 17 de Maio. O problema
que se põe é se o país pode ficar na contingência de ter o PM durante um tempo
indeterminado, considerando a possibilidade de recursos sucessivos, a ser
julgado por vários crimes, entre os quais os de atentado contra o Estado de
Direito. Também de eventualmente vir a ser condenado, com perda de mandato ou
impossibilidade de exercício qualquer outro cargo durante período de dois a
cinco anos. Curiosamente, nas
audições aos partidos políticos com assento no parlamento que precederam a
indigitação do primeiro-ministro pelo presidente da república, os
representantes da UCID não fingiram ignorar que a escolha do PR poderia recair
sobre quem, segundo um comunicado de 12 de Dezembro, era arguido numa
investigação criminal, e alertaram para possíveis consequências. O PR fez a sua
escolha e prosseguiu com a nomeação do governo. Agora com a dedução da acusação pelo Ministério
Público o país vê-se num imbróglio. A capacidade do PR de intervenção para
assegurar o regular funcionamento das instituições, entretanto, diminuirá a
partir da sexta-feira, dia 17, quando o
actual governo de gestão, após a apreciação do seu programa na AN e a votação
da moção de confiança, passar a ter
plenos poderes e a ser politicamente responsável apenas perante o parlamento. A exemplo de outras democracias que por actos
ou omissões não cuidaram o suficiente de aprofundar uma cultura de respeito
pelo cumprimento estrito das
normas e procedimentos democráticos, Cabo Verde vive o seu momento em que as
consequências de complacência com certos comportamentos políticos fazem-se
sentir e tem repercussões complicadas na imagem do país. Também não se ganhou
nem com a qualidade das propostas de governação, nem com um maior grau de
responsabilidade e lealdade dos líderes para com os seus partidos e para com a
democracia. Humberto CardosoTexto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.
7/17/2026 1:57:00 AM