Petróleo reacende alerta para inflação e pode travar queda dos juros no Brasil
A disparada do petróleo em meio à nova escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã reacendeu o alerta para inflação, câmbio e juros no Brasil. No começo da tarde desta quarta-feira (8), o barril do petróleo disparava mais de 8%, do tipo Brent, a US$ 80,15, e saltava 7,5%, o WTI, a US$ 75,74.O preço da commodity ampliou a alta, sobretudo, após o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que o país “provavelmente” voltará a atacar o Irã nesta quarta-feira.Mesmo sendo produtor e exportador da commodity, o país continua exposto ao preço internacional do barril, à variação do dólar e aos efeitos do petróleo mais caro sobre combustíveis, fretes e custos de produção.Para analistas, o risco central não está apenas na alta do Brent no curto prazo, mas na possibilidade de o choque se tornar persistente. Se a tensão no Oriente Médio continuar pressionando a oferta global ou ameaçar o fluxo pelo Estreito de Ormuz, o petróleo pode sustentar preços mais altos por mais tempo — e, nesse cenário, reduzir o espaço para uma queda mais rápida da Selic.Segundo Bruno Cordeiro, analista de mercado da StoneX, o mercado voltou a demonstrar forte preocupação com a oferta global, especialmente diante da incerteza sobre as exportações do Golfo Pérsico. Ele também cita como fator adicional de sustentação dos preços os ataques ucranianos contra ativos logísticos russos, incluindo portos utilizados para exportação de petróleo.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai 1% com tensões geopolíticas; VALE3 despenca 4%Bolsas dos EUA recuam após Trump declarar fim do cessar-fogo com Irã Trump diz que acordo com Irã “acabou” e eleva temor de nova escalada da guerraApós nova troca de ataques no Golfo, presidente dos EUA afirma que cessar-fogo com Teerã perdeu validade; tensão reacende risco no Estreito de Ormuz e pressiona petróleoChoque de petróleo chega ao Brasil por mais de um canalPara Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike, o episódio atual se diferencia de uma tensão passageira porque reúne duas frentes de pressão: o risco sobre o Estreito de Ormuz e a volta das sanções americanas ao petróleo iraniano.Segundo ele, enquanto esses dois fatores estiverem ativos, o prêmio de risco no barril tende a se sustentar. Para o Brasil, o impacto aparece principalmente em dois canais: combustíveis e câmbio.“Um barril mais caro chega por dois caminhos. Encarece combustíveis e fretes, o que dificulta a trajetória de queda da inflação, e aumenta a procura global por proteção, o que pressiona o câmbio e sustenta o argumento de juros altos por mais tempo”, afirma Rizzo.A leitura é reforçada por Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad. Segundo ela, o verdadeiro fator que pressionou o mercado brasileiro nesta manhã foi o impacto da escalada geopolítica sobre as expectativas de inflação e juros globais.Para Rebecca, petróleo mais caro representa um choque de custos em toda a cadeia produtiva mundial. Isso pode levar bancos centrais, especialmente o Federal Reserve, nos Estados Unidos, a manterem juros restritivos por mais tempo para conter a inflação.Esse movimento também tende a estimular a chamada fuga para “ativos de qualidade”. Na prática, investidores globais reduzem exposição a ativos considerados mais arriscados, como os de países emergentes, e buscam proteção em títulos do Tesouro americano e no dólar. Para o Brasil, isso pode significar saída de capital estrangeiro, desvalorização do real e pressão adicional sobre os preços domésticos.Brasil é produtor, mas não está blindadoApesar da produção doméstica de petróleo, os especialistas avaliam que o Brasil não está protegido de um choque externo. Isso porque os preços dos combustíveis e derivados seguem influenciados pelas cotações internacionais e pela variação do dólar.Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, afirma que uma alta prolongada do petróleo pode pressionar combustíveis, fretes, energia e custos de produção. Além disso, pode afetar as expectativas de inflação, o câmbio e a curva de juros.Segundo ele, empresas com margens reduzidas, elevado consumo de energia, dependência de importações ou maior alavancagem financeira tendem a sentir primeiro os efeitos de um ambiente de custos crescentes e juros elevados.André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, também avalia que o Brasil não fica imune ao choque, mesmo sendo produtor e exportador de petróleo. Para ele, uma alta persistente do barril pode pressionar combustíveis, fretes e custos de produção, além de elevar expectativas de inflação.Caruso destaca ainda que o país importa derivados e sofre os efeitos indiretos sobre transporte, alimentos, indústria e expectativas inflacionárias. Ao mesmo tempo, uma piora do ambiente global pode fortalecer o dólar e pressionar o câmbio brasileiro.Selic entra no radarO principal ponto para a política monetária será a duração do choque. Uma alta pontual do petróleo pode ter efeito limitado, mas um movimento persistente tende a tornar mais difícil a convergência da inflação e pode reduzir a margem para o Banco Central cortar juros em ritmo mais acelerado.Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, afirma que o efeito do petróleo pode aparecer no IPCA por meio de combustíveis, fretes e custos logísticos, além de alimentar uma alta do dólar em momentos de maior aversão ao risco.“Em vez de reagir apenas ao choque do petróleo, o Banco Central tende a observar se a alta contamina expectativas de inflação, câmbio e preços administrados”, afirma Friggi.André Matos, CEO da MA7 Negócios, também vê risco de um petróleo mais caro alimentar a inflação e reduzir o espaço do Banco Central para cortar a Selic. Segundo ele, o movimento ocorre às vésperas da próxima decisão do Copom e divide a Bolsa em dois lados: ajuda produtoras de petróleo, como a Petrobras, mas pesa sobre setores sensíveis a combustível e juros, como aéreas, bancos, varejo e construção.Para Matos, a oferta ainda abundante, com a OPEP+ elevando a produção, pode limitar a alta se o conflito não escalar. O principal risco, diz, é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo do mundo. Se a região for de fato ameaçada, afirma, o barril pode disparar rapidamente.The post Petróleo reacende alerta para inflação e pode travar queda dos juros no Brasil appeared first on InfoMoney.
7/8/2026 8:47:19 AM