Suspeição perigosa - Jorge Eurico
Luanda - Carlos Candanda é dirigente da UNITA. Um galo negro sénior. Tem no Club-K uma tribuna de onde, não raras vezes, confunde independência intelectual com licença para a irresponsabilidade. Pratica a opinião como um desporto sem árbitro. Sem regras. E, sobretudo, sem responsabilidade.
Fonte: Club-k.net
«O Bicesse e a Narrativa Portuguesa» é o título do seu mais recente artigo. Nele há uma passagem que merece atenção: «A título de exemplo, numa reunião de cúpula, presidida pelo Presidente José Eduardo dos Santos, um dirigente do MPLA afirmava que “todos os que nasceram a sul do rio Cuanza são primitivos, suspeitos de ser da UNITA”.»
A citação é grave. E inverosímil. Não é verificável. Nem encontra corroboração nos anais da história política recente do País. É fácil e cómodo invocar uma reunião que ninguém pode confirmar. Carlos Candanda não indica a data. Não indica o local. Não indica o contexto. Nem identifica o alegado autor da afirmação. A referência surge vazia de elementos verificáveis. A sua credibilidade assenta apenas na palavra de quem a reproduz. Leviandade.
José Eduardo dos Santos liderou o MPLA durante trinta e oito anos. Nesse período, o partido acumulou erros. E continua. Cometeu excessos. E continua. Assumiu responsabilidades governativas que merecem crítica e escrutínio. Nisso não há divergência. Mas não existe memória política consistente de um MPLA estruturado em torno do tribalismo ou do regionalismo como princípio organizador da sua acção.
A acusação implícita no texto de Carlos Candanda é outra. Sugere que o MPLA faz da origem regional um critério de suspeição política. É uma insinuação séria. Exige provas sérias. Mais do que um juízo sobre o MPLA, a passagem reproduz um preconceito antigo. A ideia de que determinadas regiões do País possuem uma identidade política natural. Homogénea. Hereditária. É precisamente esse tipo de pensamento que Angola deveria ter ultrapassado há muito tempo.
A ironia é evidente. Essa visão tem sido frequentemente associada à própria UNITA pelos seus adversários. Formalmente, qualquer cidadão angolano pode militar na UNITA. Tal como no MPLA. Mas a percepção pública continua a associar a UNITA a uma base social e regional específica. A prudência recomendaria evitar generalizações. Sobretudo as que reabrem velhas fracturas. Ainda bem que a independência de Angola foi proclamada pelo MPLA sob o estandarte da unidade nacional. E não da supremacia regional.
Se o Estado tivesse sido capturado por lógicas exclusivistas defendidas a época pela FNLA ou pela UNITA, Angola seria hoje um País ainda mais fragmentado.O mais preocupante no texto de Carlos Candanda é a crítica ao MPLA. A crítica política é legítima e necessária. O problema está na reabilitação de preconceitos regionais. Está na reciclagem de suspeições colectivas. Está na tentativa de transformar estereótipos em argumentos políticos.
O Club-K tem o direito de publicar opiniões incómodas. Deve tê-lo. Mas também deve ponderar a qualidade do que publica. Nem tudo o que se apresenta como análise merece esse nome. A irresponsabilidade política torna-se mais perigosa quando veste o fato da reflexão intelectual. O preconceito passa por análise. A insinuação faz-se argumento. A suspeita apresenta-se como facto.
Sem provas. Sem verificação. Sem contraditório. É pouco para a História. É pouco para a política. E é manifestamente pouco para sustentar uma acusação tão grave.
6/30/2026 12:09:42 AM