Rescaldo das Eleições Legislativas em Cabo Verde: Mudança ou Ilusão? Os Riscos de um Retumbante Falhanço
O PAICV venceu com
maioria absoluta. Contudo, trata-se de uma maioria curta: num parlamento de 72
deputados conquistou exatamente metade dos assentos, ficando o MpD com 34
deputados e a UCID com 2. Na prática, uma convergência parlamentar entre MpD e
UCID poderá bloquear iniciativas fundamentais do novo governo.Mais interessante
do que a vitória do PAICV é compreender por que perderam o MpD e a UCID. O
equilíbrio político manteve-se em grande parte do país. O PAICV ganhou
sobretudo em São Vicente e na diáspora dos Estados Unidos, conquistando mais
quatro deputados e beneficiando também do desgaste natural de um partido após
uma década no poder. Erros de governação, ausência de reformas estruturais,
falhas de comunicação política e incapacidade de responder às expectativas de
mudança parecem explicar melhor o resultado do que uma adesão particularmente
entusiástica ao projeto vencedor.Há, contudo, um
elemento novo que merece atenção.O atual líder do
PAICV é um outsider relativamente recente na política nacional. Ascendeu à
liderança partidária num momento de fragilidade interna, conquistou a Câmara
Municipal da Praia e alcançou agora a chefia do governo. O seu percurso foi
marcado por um discurso fortemente crítico do funcionamento do sistema político
cabo-verdiano, frequentemente apresentado como incapaz de responder às
necessidades da população.Tal como em 2001,
o regresso do PAICV ocorre num contexto de desgaste governativo,
descontentamento social e descrença institucional. Mas existe agora um fator
adicional: a reabilitação, explícita ou implícita, de aspetos do antigo regime
de partido único e uma narrativa revisionista sobre a história política recente
de Cabo Verde.A campanha foi
marcada por promessas ambiciosas, forte mobilização emocional e soluções
aparentemente simples para problemas complexos. É precisamente aqui que reside
a minha principal preocupação.Compreende-se a
frustração de muitos cabo-verdianos que continuam sem emprego, oportunidades ou
perspetivas, frequentemente obrigados a emigrar. Mas não eram precisamente
esses os problemas cuja resolução foi prometida após o 25 de Abril e cuja
solução alegadamente passaria pela independência de 1975?Não acredito que a
transformação de que Cabo Verde necessita venha do atual PAICV nem da liderança
agora eleita.Mais preocupante
ainda é ouvir referências elogiosas ao sistema anterior a 1991 e a um alegado
“entendimento de aço” relativamente ao regime de partido único. Durante quinze
anos, Cabo Verde viveu sob um modelo de forte centralização do poder, controlo
ideológico e limitação das liberdades fundamentais, cujas marcas políticas e
culturais persistem, em parte, até aos dias de hoje.Não se trata de
afirmar que a História se repetirá, mas de reconhecer que certos reflexos
autoritários permanecem latentes. Quando se normalizam nostalgias desse
período, abre-se espaço para formas mais subtis de condicionamento da
liberdade, do pensamento crítico e do pluralismo democrático.Não há lugar para
saudosismos de partido único numa democracia moderna.Também inquieta a
emergência de discursos identitários e revisionistas que procuram reinterpretar
Cabo Verde através de narrativas próprias do contexto político de 1974 e 1975,
mas pouco úteis para enfrentar os desafios atuais.Prometer o resgate
da dignidade de uma ilha, região ou grupo social pode ser politicamente eficaz,
mas também pode aprofundar fraturas num país que sempre viveu da sua capacidade
de integração e equilíbrio.Enquanto isso, o
debate político degrada-se. Torna-se mais superficial, tribalizado e dominado
por slogans. A argumentação cede lugar à emoção e a análise ao marketing
político.O balanço dos dez
anos de governação do MpD é, no mínimo, mitigado. O país tornou-se mais
centralizado, mais dependente e mais desigual territorialmente. Muitas reformas
prometidas nunca saíram do papel. O partido necessita de uma renovação política
e intelectual profunda.Mas também não
consigo rever-me no atual PAICV nem na qualidade do seu discurso político.
Continuo impressionado pela pobreza argumentativa de grande parte da campanha
eleitoral, frequentemente reduzida a fórmulas simplistas e mensagens
populistas. Cabo Verde merece um debate político mais exigente e líderes
preparados para enfrentar desafios complexos.Prometer um Estado
mais eficiente, justiça social, melhores transportes ou menos privilégios é
relativamente fácil. Difícil é explicar como tudo isso será financiado.Governar não é
distribuir benefícios sem indicar receitas nem construir um Estado-providência
sem uma economia capaz de o sustentar.Como observou
David Leite, Cabo Verde é um pequeno país inserido numa economia globalizada.
Depende do investimento externo, da cooperação internacional, das remessas dos
emigrantes e da confiança dos mercados. Não pode ignorar essa realidade.Quem governa Cabo
Verde deve inspirar-se nos melhores exemplos da social-democracia europeia, mas
sem esquecer as limitações concretas do país. É preciso, como diz o provérbio,
fazer omeletes com os ovos que existem.Mas o problema
cabo-verdiano é ainda mais profundo.Talvez tenha
chegado o momento de reconhecer que a crise não é apenas de governação. É
também uma crise do modelo político construído desde 1975 e apenas parcialmente
reformado após 1991.Cabo Verde
continua preso a um sistema excessivamente centralizado, partidocrático e
incapaz de libertar plenamente as energias criativas das ilhas. O resultado
está à vista: desertificação humana de várias ilhas, concentração populacional
crescente em Santiago, dependência económica persistente, emigração dos mais
qualificados e empobrecimento gradual do debate nacional.Existem hoje dois
grandes partidos herdeiros, de formas diferentes, do universo político criado
pelo antigo PAIGC. O PAICV continua ancorado na legitimidade histórica da
independência e do legado do partido fundador. O MpD, apesar de ter surgido
como alternativa democrática, acabou por se transformar numa máquina pragmática
de poder sem identidade ideológica claramente definida.A UCID desempenhou
um papel importante na democratização, mas parece hoje resignada a uma posição
de sobrevivência parlamentar, incapaz de se afirmar como verdadeira alternativa
governativa.O resultado é um
sistema fechado sobre si próprio, onde a alternância raramente produz mudanças
estruturais. Mudam os protagonistas, os slogans e as campanhas, mas o essencial
permanece intacto.O verdadeiro teste
ao novo governo não será apenas cumprir promessas eleitorais. Será enfrentar
problemas estruturais que sucessivos governos evitaram resolver: a excessiva
centralização do poder, os desequilíbrios territoriais, a dependência económica
externa, a desertificação humana das ilhas e a ausência de uma reforma profunda
do Estado.Sem
regionalização, ou seja, um verdadeiro poder local, sem revisão séria das
estruturas de governação e sem uma nova cultura política baseada na
responsabilidade, competência e proximidade aos cidadãos, Cabo Verde continuará
a discutir os mesmos problemas daqui a dez ou vinte anos.A campanha
terminou, a democracia falou e o resultado deve ser respeitado, Francisco
Carvalho venceu as eleições. Mas vencer
eleições é a parte mais fácil.A realidade começa
agora: governar, cumprir, apresentar resultados e demonstrar que as promessas
feitas ao eleitorado podem transformar-se em políticas concretas, sustentáveis
e compatíveis com a realidade do país.Os cabo-verdianos
julgarão pelos resultados.E estaremos todos
cá para observar, analisar, escrutinar e exigir contas.Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.
6/1/2026 9:00:57 AM