Luanda - A antiga ministra da Educação Alexandra Simeão afirmou, recentemente no podcast “Polígrafo África” que “a política não pode ser um emprego”. A frase soa bem. Tem apelo moral. Mas merece uma reflexão mais cuidadosa. Não porque os políticos devem enriquecer à custa do Estado. Mas porque confunde dois problemas diferentes: a “profissionalização” da política e a corrupção política.
Fonte: Club-k.net
Bem, a Ciência Política nos ajuda a destrinchar esse dilema.
Em 1919, o sociólogo Max Weber escreveu “A política como vocação”. Nesse texto clássico, o alemão distinguiu entre “viver para a política” e “viver da política”. No primeiro caso são os que possuem recursos próprios. No segundo são os que dependem da atividade política para viver.
Weber não condenou nenhum dos dois tipos. Somente constatou que a política exige profissionalização. Estados complexos precisam de políticos que se dediquem integralmente à função pública. Isso não é pecado “mortal”.
No Brasil, o professor Adriano Codato tem retomado essas ideias para desmistificar o senso comum. Em artigos como “Nem só de Jesus vive o Parlamento [...]” e “Políticos representam interesses enquanto representam os próprios interesses”, ele considera que a “profissionalização” não é desvio moral, mas característica da política contemporânea.
“Profissionalização” significa que a atividade política tornou-se uma atividade permanente, com “remuneração regular”, que demanda dedicação exclusiva. Isso não é desvio. É consequência da modernização do Estado.
Parlamentos modernos funcionam em sessões longas, com comissões técnicas, debates especializados e fiscalização do Executivo. Ministérios gerem orçamentos volumosos, políticas complexas, equipes extensas. Esse labor não pode ser realizado nas horas vagas por amadores bem-intencionados.
Angola tem hoje uma Assembleia Nacional de 220 deputados, que votam leis sobre educação, saúde, etc. Tem ministros e secretários de Estado que coordenam políticas públicas em áreas técnicas. Esperar que façam isso de “borla” ou sem ganhar “Kumbu”, é irrealista.
Desde a “democratização” em 1992, Angola passou por transformações importantes no seu sistema político. O Parlamento ganhou atribuições. Os deputados “deixaram” de ser apenas militantes do partido para tornarem-se legisladores com funções institucionais. Ministros assumiram responsabilidades de gestão cada vez mais técnicas.
Essa mudança trouxe “profissionalização”. Desse modo, deputados recebem salários, têm gabinetes, assistentes, benefícios. Ministros coordenam estruturas governamentais complexas. Isso não é anormal. É padrão em países que abraçam instituições democráticas.
Aqui reside a confusão central. Uma coisa é receber um salário compatível com a função legislativa ou executiva. Outra coisa é usar o cargo para acumular riqueza pessoal através de contratos, comissões, favorecimento a empresas.
Ainda no Brasil, estudos (Codato, 2025; no mais ver pesquisas desenvolvidas no PPGCP/UFPR) mostram que deputados evangélicos – amiúde vistos como “vocacionados” – construíram carreiras políticas longas e lucrativas. Isso não os torna necessariamente “marimbondos”. Apenas demonstra que vivem da política, como outros profissionais.
O mesmo raciocínio é válido para Angola. Muitos deputados e ministros que fazem carreira na administração pública não são, automaticamente, desonestos. O problema surge quando o sistema permite que usem a posição para proveito privado sem consequências.
A “profissionalização” quando acompanhada de fiscalização, transparência e competição eleitoral, melhora a qualidade da representação. Políticos que dependem do mandato ou do cargo para sobreviver têm interesse em mantê-lo, e para isso precisam demonstrar resultados.
Assim, a questão não é eliminar a política como emprego. É construir mecanismos de controle: imprensa imparcial, partidos competitivos, eleições limpas, justiça independente, sociedade civil ativa. Sem isso, tanto políticos “vocacionados” quanto “profissionais” terão incentivos para desviar recursos.
A moralização do debate “política não pode ser emprego”, desvia a atenção do essencial. Não é remuneração dos deputados e ministros que corrói a democracia. É a ausência de mecanismos de recrutamento sério, fiscalização e prestação de contas.
Enquanto continuarmos a confundir a “profissionalização” com a corrupção, permaneceremos a interpretar equivocadamente as causas do problema no país.
Eugénio Sawanga Kapiñala, Historiador, mestrando em Ciência Política.